Adriano Campos

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Adriano CamposJuntos e ao contrário: uma luta contra o cinzento.

Para mim o Porto sempre foi uma cidade aonde se ia. O autocarro serpenteava a periferia e despejava um magote de pessoas ensonadas na Fernandes Tomás. A pressa comandava o dia e limitava os passos possíveis pela baixa da cidade. Ao entardecer, o cansaço tomava os lugares, e a volta acontecia. Mais tarde percebi que no Porto também se podia estar e ficar, mesmo que cada vez menos pessoas o fizessem. E ao ficar cedo descobrimos que o Porto é uma cidade cinza, mas que nesse tom de cinzento, dois matizes, diferentes em tudo, travam uma batalha incessante.

Há um cinzento que é o do final de novembro, da chuva miúda que cai na nuca dos desavisados, o cinzento das esquinas onde passa um povo que carrega no andar uma vida de agruras sem fim. O cinzento que nos abraça no encontro permanente da rua – que nos diz que há uma dignidade em habitar com outra gente. Mas há também no Porto um cinzento que fere. O cinzento que forra os gabinetes da Câmara, o cinzento que sai dos mercedes que trazem as madames à missa da Lapa, o cinzento que habita a aridez humana de uma elite que prefere habitar junto ao mar, só para fugir das gentes – gente que tem nojo de gente. Esse é o cinzento que se abateu sobre o Rivoli, que pintou de branco as paredes coloridas com a vida da escola da fontinha, o cinzento que implodiu o Aleixo; o cinzento que comanda a vida de uma cidade que se esvazia.

Contra este cinzento que fere, muitos ousaram levantar a voz. Disseram, imagine-se, que o Porto é uma cidade possível. Alguns deram para encher as ruas da cidade, de gritar contra a troika e a sua austeridade estúpida. Outros inventaram de ocupar lugares vazios, de fazer acontecer coisas feitas por pessoas para as pessoas. Outros ainda acostumaram-se a apontar o dedo às negociatas da direita, de se opor aos despejos de quem sempre morou onde morou. Gente imponderada, que se juntou para fazer a cultura acontecer onde diziam que ela não podia acontecer da forma que queriam que acontecesse. Gente insurgente, que arriscou o encontro para dizer que se pode virar o porto ao contrário, que é possível juntar força à esquerda para ter na Câmara um dos nossos.

Uma candidatura contra o cinzento, cheia de gente madura que sabe que esta luta é uma paleta. Ninguém fica a pintar sozinho.

Adriano Campos